O futuro e a nova libertação feminina


Navegando em mares revoltos e desafiantes desse novo século, nós mulheres, culturalmente identificadas como o gênero feminino, vivemos hoje um movimento de liberação que transcende os direitos e os deveres.

Há meio século, Betty Friedan, com sua obra “A Mística Feminina”, fincou os alicerces do feminismo entrevistando centenas de mulheres e concluiu que não tínhamos definida nossa própria imagem; e que esse espelho embaçado só nos trazia tristeza, insatisfação, sentimento de fragilidade. Das chamas desse desconforto e do contexto sócio-político-cultural da época, e através de todas as conferências mundiais que fizeram ecoar as vozes da metade da população, explodiu o movimento feminista.

É de fato espetacular a revolução de costumes e pensamento que se formou em torno do movimento das mulheres no século 20. Saber o quanto já caminhamos e a intensidade dessa caminhada que se instalou em toda a experiência humana nos agracia e abre as cortinas de um novo mundo. Não cabe aqui quantificar os avanços em porcentagens e números, já tão disseminados por uma infinidade de estudos estatísticos.

Quero apenas me ancorar e fazer os leitores se ancorarem no tempo e no espaço do que é ser mulher e indagar a profundeza de nosso ser: onde estamos?

Entre conquistas e renúncias nesse novo século, ganhamos visibilidade no universo público, mas ainda não nos vemos dentro do universo privado e nem o que somos nele. Perdemos o sentimento de inferioridade, mas ganhamos o sentimento de culpa por não podermos exercer todos os papéis a que nos propusemos. Queríamos libertação das amarras da sociedade patriarcal, mas ainda não nos libertamos das próprias amarras que nos impusemos como responsáveis pelo que herdamos em busca da igualdade. Temos direitos de opção, mas não de deveres. Vivemos atreladas à necessidade de trabalhar para complementar o orçamento doméstico e nos rendemos submissas à ditadura dos padrões estéticos impostos pelo universo simbólico masculino que persiste há milênios.

Hoje, as janelas se abrem para um novo mundo. Temos que ver a luz do que podemos ser e sair da sombra do que já fomos. O movimento das mulheres nos fez evoluir e é por ele que conseguimos espaços de influência em todos os setores que nos ouvem e nos acolhem. Entretanto, no contexto de uma nova civilização que está emergindo e fazendo emergir uma nova era, temos que iniciar um novo movimento que não nos faça confrontar com limitações culturais do que devemos ser ou fazer como homens ou mulheres. Saber quem realmente somos e o que significa sermos humanos nessa nova era de transição é a chave da evolução de toda a humanidade.

Frente ao chamado da sobrevivência como espécie, cúmplices que somos e devemos ser na reconstrução da vida na Terra, ameaçados pela exaustão dos recursos naturais e assombrados por uma simultaneidade de crises sem precedentes, temos que nos dar as mãos, mulheres e homens.

Sair do modelo de dominação (eu ou ele) e inaugurar o modelo de uma sociedade pautada na parceria (eu e ele) é a proposta da macro-historiadora Riane Eisler, numa de suas últimas obras viscerais “O Poder da Parceria”, já editada no Brasil pela editora Palas Athena. Riane convoca-nos para esse salto evolutivo. Segundo ela, o mundo em que vivemos se rege pela complexidade aleatória de correntes e contracorrentes, que se digladiam entre dois modelos de relacionamento com a realidade: o modelo de dominação e o modelo de parceria.

Certamente tarefas incompletas precisam ser concluídas, como instaurar no sistema econômico os valores que o patriarcado usurpou em 8.000 anos e incluir na contabilidade das nações a “economia do amor”, professada há décadas pela futurista Hazel Henderson, que envolve o trabalho doméstico, as atividades voluntárias, tudo o que se relaciona com o cuidado do outro, sejam os filhos, os pais, as comunidades e o planeta. Segundo Hazel, essa economia equivale a 50% da riqueza gerada na Terra.

Não podemos deixar de lado a reinvenção dos sistemas simbólicos, que foram também produzidos pelo patriarcado, que segundo Rose Muraro, ícone do feminismo nacional, vai da gramática, crenças, comportamentos até o poder político e econômico. Rose convoca-nos a construir uma nova ordem simbólica, na qual o “grande outro” é a própria vida, vivendo e deixando viver, desconstruindo a velha ordem e reconstruindo um novo modelo civilizatório.

Enquanto mulheres caminham em direção a um novo mundo que reúna os princípios da integração entre o feminino e o masculino numa relação harmoniosa, temos que nos reconhecer nessa nova convocação. E isso só será possível mudando a trajetória da caminhada.

Saber quem somos e para onde estamos indo como mulheres transcende, a partir de agora, a questão da igualdade de direitos e da luta pela emancipação. Esse novo momento histórico nos compele para uma nova jornada, e dela vai depender a nossa sobrevivência coletiva. Para saber quem somos, temos que ver o outro em toda sua inteireza e complexidade. Para nos orientar no caminho do futuro, temos que buscar a luz de quem sempre esteve do outro lado e oferecer a mão para trazê-lo para o nosso lado, e assim guiarmos e sermos guiadas dando passos evolutivos.

Depois de 50 anos de lutas, ideais e conquistas, o propósito maior agora é o de elogiarmos nossas diferenças em nossas indispensáveis complementaridades, mulheres e homens, motivados por um amor infinito pela vida e pela beleza que é coabitar esse planeta nesse momento de rara oportunidade de sermos melhores do que sempre fomos.

TEMAS